Alegria de servir, por Divaldo Franco

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Divaldo Franco*

Vive-se, na atualidade, o período utilitarista-imediatista. A grande maioria das pessoas que constitui a sociedade, em tormento egoico, sente-se arrastada por falsas necessidades que devem ser atendidas mediante o consumismo desenfreado, que se expressa no prazer pessoal sem outra preocupação com os demais indivíduos.

No dia a dia parece que a solidariedade fica marginalizada e o velho chavão do cada um por si torna-se a filosofia existencialista que merece consideração. De quando em vez, ante as calamidades que irrompem zombeteiras, ante a presunção humana, surgem os heróis anônimos que se destacam, sensibilizando a coletividade e convidando os adormecidos ao despertar.

Na recente tragédia da ruptura da barragem de Brumadinho, em Minas Gerais, os bombeiros e incontáveis anônimos revezaram-se arriscando a própria existência para salvarem outras tantas que a lama destruía. Cenas comovedoras e sacrificiais eram apresentadas a cada instante, confirmando o amor que existe latente nos seres humanos, embora a indignidade de alguns que se iludem no crime e na crueldade.

O objetivo essencial da existência é amar e, por consequência, servir. Muitos servem-se do seu próximo, enquanto outros tantos descobriram a grandeza do servir e vivem experienciando esse hino à alegria, que significa nobre contribuição por encontrar-se reencarnado.

Oportunamente, li uma inscrição de nobre Entidade solidária: Quem não vive para servir ainda não aprendeu a viver. Propô-lo-ia, porque todos servimos para viver, mesmo quando atravessando o labirinto do egoísmo, até o momento oportuno do despertar da consciência para a ação significadora. Como ser gregário que somos, necessitamo-nos uns dos outros, a fim de podermos sobreviver aos fatores de destruição, que fazem parte do planeta de provas e expiações, como bem definiu Allan Kardec.

Na união dos nossos ideais e forças desenvolvemos o progresso, edificamos valores de enriquecimento moral e espiritual, em favor do mundo melhor, no qual as possibilidades de harmonia e de saúde, de equilíbrio e ordem fazem-se mais rapidamente, a todos plenificando.

Verifico o modismo atual de amor aos animais. Ontem, os mesmos eram odiados, perseguidos, malsinados… Hoje, no entanto, descobrimos quanto nossos irmãos inferiores na escala zoológica são-nos úteis, quantas lições deles recebemos, pecando pelo excesso em muitos casos, mas iniciando a hora do amor a tudo e a todos os seres…

O serviço, o trabalho são também terapêuticos, constituindo um saudável recurso para a existência digna. A notável poetisa chilena Gabriela Mistral, Prêmio Nobel de Literatura em 1945, no seu magnífico poema O prazer de servir, acentua: Toda a Natureza é um desejo de serviço

 Serve a nuvem, serve o vento, servem os vales.

Onde haja uma árvore que plantar, planta-a tu;

Onde haja um erro que emendar, emenda-o tu;

Onde haja um esforço que todos evitam, aceita-o tu…

Quando descobrirmos e vivermos esse sentido da vida, todos seremos ditosos. Assim, tentemos, mesmo por astúcia, viver essa alegria de servir, tornando-nos conscientes do que somos.

*Divaldo Pereira Franco é professor, médium e conferencista espírita.

(Artigo publicado no jornal A Tarde, coluna Opinião, de 22 de fevereiro de 2019)

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